sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Charles Bukowski


O pássaro azul

há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, fica aí, não vou
deixar ninguém te
ver
há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu meto uísque nele e dou um 
trago no meu cigarro
e as prostitutas e os garçons
e os balconistas dos mercados
nunca percebem que
ele está
aqui dentro

há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, 
fica quieto, você quer zoar
comigo?
Quer ferrar com meu
trabalho?
Quer acabar com a venda dos meus livros na
Europa?

Há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
à noite, às vezes
enquanto todo mundo está dormindo
eu digo, eu sei que você está aí
não fique
chateado
então o ponho de volta
mas ele canta um pouco
aqui dentro, não o deixei realmente
morrer
e dormimos juntos 
assim
no nosso
pacto secreto
e isso é o bastante pra
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Breve consideração sobre a realidade de Arthur

Para Arthur, é inútil pegar a caneta, daqui para frente terá que conviver com a frustração de não saber escrever e com a culpa que ainda carrega pela morte dos pais e o assassinato da sua pequena garota. Nada disso teria acontecido se ela não o enganasse com aquele verme. Arthur não teve escolha, era ela viva nos seus braços ou morta nos braços do parasita, como era de se esperar, ela preferiu morrer, por este motivo Arthur perdeu sua vocação para a escrita, ele vai de fato renunciar a este prazer que antes executava com maestria e rapidez, está descendo cada vez mais baixo, porque é um imbecil, poderia perfeitamente usar como inspiração esta enrascada na qual entrou, mas Arthur é sensível demais, moralista demais, burro demais, para detalhar sua experiência. Ele seria perfeito se fosse um pouquinho menos emotivo.
Arthur era poeta, depois contista, depois nada, é lamentável sua situação, chegou à conclusão de que talvez nunca tenha possuído essa tal vocação digamos literária, exceto nas tardes frias que passava ao lado de sua pequena garota, em umas das mãos a taça de vinho e na outra o papel.
Como eram encantadoras e geladas aquelas tardes onde o sol deitava atrás das montanhas, enquanto ele beijava os lábios daquela menina, agora morta.
Ele escrevia por pura necessidade de detalhar suas diversas emoções, mesmo que estas fossem vãs. Ora, ora, mas não é justamente isso que os grandes poetas fazem,descrevem suas emoções sem se preocupar com quem irá ler escrevem para degustar o prazer da vida e transformar momentos efêmeros em imortais.
Não é isso que Arthur pensava, ele só queria trazer doçura e divinal beleza para sua melancolia, convenhamos escrever não está no seu espírito. Ele é patético, não pode sequer almejar ser um poeta de calçada
E agora o que lhe resta?Arthur tem duas opções, a primeira é amarrar logo aquela corda que está a sua frente no pescoço acabar com a droga de vida, ou então viver condenado com o maldito arrependimento que ainda sente

sábado, 26 de novembro de 2011

........

Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
                                                                         
                                                            Lou Andreas Salomé

domingo, 20 de novembro de 2011

Eu queria que algumas pessoas fossem minhas e somente minhas,não eu não quero compartilhá-las,assumo que sou possessiva,só por favor não as tome de mim.Entendam são seres quase celestiais,as coloco em alto pedestal mesmo sabendo que a qualquer momento irão destruir seu próprio altar,e eu como de costume com toda paciência e delicadeza do mundo juntarei cada pequeno pedaço para reconstruí-lo

terça-feira, 15 de novembro de 2011

tirando memórias da gaveta


Era uma dessas típicas férias escolares em que aproveitamos para visitar os parentes mais distantes e repugnantes, somente para cumprir os deveres morais. Mas se eu conseguisse adivinhar o futuro não teria me ausentado nem por um instante, gostaria de voltar no tempo ao menos para reviver os momentos felizes e infelizes que passei ao lado de vocês
Desejaria tanto dar-lhes o último abraço, contar-lhes a última piada, comermos uma deliciosa refeição pela última vez, passearmos pelas ruas olhando vitrines e sendo patéticos talvez isso seja pretensioso demais, me contentaria se tivesse a oportunidade de dar o último adeus
Porque partiram? Tudo combinado eu sairia e depois voltaria para casa como de costume e tudo estaria no seu devido lugar, era tão simples, porque vocês complicaram tanto, acaso não tinham piedade dos meus sentimentos, não sabiam o quanto eu sofreria sem vocês ao meu lado, poxa eu era uma criança, faltavam alguns passos importantes para eu trilhar e nestes passos precisaria agarrar nas mãos de vocês
Quem sabe não tenham culpa, foi Deus que quis assim, é tudo de acordo com a vontade dEle,mas e Deus não tinha olhos para mim.Fiquei sozinha,desamparada e incompreendida durante o enterro de vocês não derramei sequer uma lágrima para molhar aquela terra seca
Eu não entendia, parecia que era um espetáculo e logo as cortinas se abririam e eles estariam no palco sendo aplaudidos por terem me enganado com perfeição, infelizmente aquilo era real
Sinto saudades de quando caminhávamos entre folhas secas, mergulhávamos no rio, tomávamos sorvete, corríamos atrás de pipas, brincávamos com aquelas bonecas feias e chorávamos ah como chorávamos de plena alegria

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Busca

Percorri longas estradas, grandes avenidas e belos bosques
Corri atrás dos religiosos dos cientistas, dos filósofos e até atrás daquele que tanto teme ao vencedor da cruz do calvário, no entanto as ruas pelas quais andei e os caminhos que atravessei nenhum deles me foram suficientes para chegar até Ele
Uma flor qualquer poderia me dizer onde estava aquele a quem eu tanto procurava, mas foi levada pelo vento
Nos bosques nem o céu azul e os casais felizes puderam me responder para onde Ele tinha partindo
Nos templos,os religiosos mentiam,humilhavam, matavam e depois tentavam me convencer de que conheciam Ele
Cientistas e filósofos ora acreditavam na existência Dele, ora não
Por fim cansei de procurar, deitei sobre minha alma e Ele estava lá, ao meu lado

São nessas gotas que se espalham no chão que busco um indício qualquer, lampejos de paixão
Devagar, pouco a pouco paira na alma o desejo de ser amada
Filtro as lágrimas buscando incessantemente um gesto
Tão terno no olhar e tão seco nas palavras, me sirva um conhaque para molhar a garganta
Alegria repugnante esta que vivo escondida em risos e intercalada em pranto
A dor me consome, bebo as lembranças da incerteza de seu amor